quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

ALHÁCA



( fragmento)

"Chega de saudade, amor, boemia ou loucura. Quero bradar minha normalidade extraordinária; cada ato simplório que os olhos de dentro digerem numa aura celeste e única, colorindo a amargura de se saber medíocre. Eu sou mais normal do que penso, sou mais banal do que sinto. E enquanto essas certezas ecoam pelas esquinas, eu chamo meu lado de dentro pra dançar, eu sacralizo minha própria inutilidade. Uma alienação tão doce e ao mesmo tempo consciente. Reverencio o mundo com minhas calças rasgadas no fundo e aceito de bom grado o gozo de vaias ou aplausos. Quero-os. Mas antes de tudo, eu quero Olhos em mim. Quero bocas cuspidas que me leiam a um fôlego só, feito saga nordestina cantada no miolo da Lata. Quero Quadernas, frenesis e o êxtase. A beleza do desespero em monólogo, a linha entre ele e a Loucura, minha dama Maior. A Insanidade, a quase perda, o pulo no muro dos Jardins da Razão. Um dia eu chego lá. E quando esse dia chegar, me renderei inteira à imagem mais linda que jamais existiu, abrirei muito as pernas para todas as cores que houverem naquela vida e soltarei a mão que me segura à esse mundo de nós todos. Voarei pra longe, enfim.E nunca mais vou lembrar de pousar."



SERTOINS



Eu quero que ela dance, dance, dance painho, e rebole no mato minhas juntas de homem, minha dureza de vida, essa minha intransigência. Eu quero perder a cabeça, bicho do mato, furioso, caçado. Eu quero é ser achado pelo meio das pedras, pegue de surpresa e de calça curta, degolado de dúvida, duma tocaia só. Quero morrer de amor, mainha, arrebatado no chão, se debatendo quase de morte, tremendo de bala furada certeira bem funda no meu coração. Filho, meu filho, toma tua benção de sorte, meu beijo de medo e raiva, minha fúria calada da noite à espreita dessa que será uma outra de mim pra ti. Não mainha, outra não. Mas uma trança enorme e tão linda, de todas as cores que uma mulher carrega no peito. Eu quero ostentar no meu corpo o emaranhado sedoso de todas as fêmeas do mundo, amá-las a todas amando a uma só. Ver no mar o rosto da minha donzela desenhado das algas e nela me afogar dos abraços de malícia que mainha não pode me dar. Preciso dela, minha mãe, careço dos encantos dela pra me achar. Não pra me perder , mas sim cavucar essa poeira de Macho que eu aprendi a não soprar; desenhar com a ponta da unha, formando desenhos de novas portas, novas casas, novas cores. Eu quero é amar. Abenção minha Virgem, e me protega dessa dor que arrasta meu tempo de Menino Feito no rumo dum abismo Maior que Eu, onde eu quero me largar pra sempre e serenar a brisa dos cabelos das meninas que eu um dia hei de provar.

Eu quero, meu pai, ter uma princesa de cabelo cor de ouro, uma onda de sol que me cegue o peito arrebatado, jorrado da luz do seu sorriso de amor. Eu quero olhos de céu, meu filho, onde teu amor abra as asas num branco infinito de luas, onde carcará nenhum se haverá. Ah eu quero cantar nos ouvidos da terra adentro minha paixão por ela nas saias que rodam, nos pés descalços, na poeira da testa que eu lamberei para lavar do suor e do fogo. Abrando a quentura desse chão seco na tua sola, te calço com minha pele e corro nas tuas pernas o sangue que eu hei de derramar por quem te fira. Bebo da vida dela, meu pai , bebo dos dedos dela a essência pra minha ferida funda que é amar uma mulher de tão longe, desse além-mar. Lasco minhas costas nos espinhos desse reizado escuro que ela insiste em dançar, duma noite sem lua onde eu só vejo a sombra do seu quadril. Por ela, meu filho, eu teço em seda os laços do meu pau-de-fita, bumbo meus bois nas Porteiras do Céu e carrego o rebanho dos pecadores para os braços do Inferno.

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