segunda-feira, 28 de abril de 2008

ALGUMAS MULHERES AMAM EXCESSO DE FOFURA!



Quando às vezes o mar soluça tristemente
A praia abre-lhe os braços, e deixa-o a gemer;
Embala-o com amor, de leve, docemente,
E canta-lhe cantigas pra adormecer!

Triste Destino (fragmento)
Florbela Espanca

domingo, 27 de abril de 2008

SONETO DA DESESPERANÇA


De não poder viver na esperança
Transformou-a em estátua e deu-lhe um nicho
Secreto, onde ao sabor do seu capricho
Fugisse a vê-la como uma criança.

Tão cauteloso fez-se em seus cuidados
De não mostrá-la ao mundo, que a queria
Que por zelo demais, ficaram um dia
Irremediavelmente separados.

Mas eram tais os seus ciúmes dela
Tão grande a dor de não poder vivê-la,
Que em desespero, resolveu: - Mato-a.

E foi assim que triste como um bicho
Uma noite subiu até o nicho
E abriu o coração diante da estátua.

Vinícius de Moraes

sexta-feira, 25 de abril de 2008

INVEJA DA MULHER DO POETA!




A ESSA ALTURA DA VIDA

A essa altura da vida
- ou melhor, nessa baixada -
continuo comovido,
continuo enamorado.

Beijo Lio, a namorada,
por ser meu ente querido.
(Continua apaixonada
minha alma, de amor vencida.)

Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 15 de abril de 2008

ESTÓRIAS DE MARIA DA CONCEIÇÃO: SOB O LUAR SE HOUVESSE UM




Eles a perseguiam com o olhar. Coçavam o ovo quando ela passava. A safada numa micro saia jeans, coxas grossas e aqueles peitos no mundo. Era de lamber os beiços, pensava o "caboco", como se diz em bom piauiês. Mas hoje especialmente "a mulher mais linda da cidade", que se divertia em provocar meia dúzia de homens rústicos que jamais a tocariam. Não se divertia em descer um pouquinho mais o decote, morder levemente os lábios, passando levemente a mão nos cabelos curtissímos.
Um mau pressentimento, uma dor, uma saudade nova de uma coisa antiga, presente novamente e que já parece perdido. Suspirou. Perguntas existenciais a perseguiam todo o dia.
Dificuldade de conversar com homens. Quando era casada achava difícil manter-se esposa. Namorada, descobrira-se uma Calipso ciumenta, capaz de fazer sertão virar mar. Ser amante de homem casado, subterrânea, amada entre aspas, não queria mais. Quase tudo para outra, nada para ela.
Bonita, e vaidosa, mulherão... e um homem difícil na cabeça. Por que aquele cara sempre promete? E ela sempre acredita. Sentia vontade de revê-lo. Quantas ligações recebera de outros? Mas seu coração só reconhece um som. A memória da sua pele, seus poros que transpiram na hora do amor, excitam-se à lembrança dele.
Suspira novamente, muitos afazeres. Nada tem sentido. Dá vontade de dançar ou naquela noite sem luar, urrar, urrar muito e alto. Porque é uma loba de quarenta anos, solitária e no cio.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

A COMPANHEIRA


A companheira
da vida inteira,
que ao meu lado
une o passado
ao novo dia
em harmonia,
a sempre forte
e meu suporte
quando vacilo,
porte tranqüilo,
voz de carinho
no meu caminho,
leal, paciente
constantemente,
simples, discreta
força do poeta,
quero-a no instante
final - constante
com sua mão
acarinhando
em gesto brando
meu coração.

Carlos Drummomd de Andrade

Uma moça me mandou scrap me pedindo material sobre Drummond, para confecção de uma monografia. Infelizmente, realmente guardei por algum tempo raras entrevistas dele, não sei mais o destino delas... então outro dia encontrei essa edição Mestres da Literatura Brasileira e Portuguesa, Carlos Drummond de Andrade - Poesia Errante - Derrames líricos ( e outros nem tanto, ou nada) de 1988, com um breve e singelo prefácio de escrito por Ziraldo, editora Record. Bom Drummond, para monografia ou não.

sábado, 12 de abril de 2008

APENAS POR ISSO


Vou me expandir tanto para poder te acariciar
que minha carne mortal se transformará em átomos invisíveis
e quando sentires, sem saber por que, um tremor de paixão será porque te envolve, ainda que não
o compreendas, esse amor ideal.

Assim que vi teus olhos,
lembras quando fitei teus olhos a última vez?,
não se cerraram meus olhos desde aquele instante
-- vejo-te em sonhos --,
mas me enrubesce acariciar-te com palavra
e não compreendo bem o porquê.
(fragmento)

Ramón Sampedro

quinta-feira, 10 de abril de 2008

ATITUDE




Minha esperança perdeu seu nome...
Fechei meu sonho, para chamá-la.
A tristeza transfigurou-me
como o luar que entra numa sala.

O último passo do destino
parará sem forma funesta,
e a noite oscilará como um dourado sino
derramando flores de festa,

Meus olhos estarão sobre espelhos, pensando
nos caminhos que existem dentro das coisas transparentes.

E um campo de estrelas irá brotando
atrás das lembranças ardentes.

CECÍLIA MEIRELES

terça-feira, 8 de abril de 2008

PERCEBES


Quando conversamos estava eu triste;
tu perguntaste a causa de minha tristeza.
Mulher, a causa de meu mal sempre é a mesma:
adoro o belo e tu és a beleza.

Amiúde sou como o Quixote:
idealizo-te dona de minha loucura
mas nunca esqueço que é apenas um sonho.
A causa de meu mal, percebes!, é a prudência.

Ramón Sampedro
(Cartas do Inferno)

quinta-feira, 3 de abril de 2008

DOIDA CRÍTICA!!!!!


A partir dessa postagem, tentarei experimentar minha veia crítica, comentando em crônicas alguns escritos, "fatos sociais". Como socióloga, apaixonada por literatura, principalmente a poesia, professora que sou, usando a ferramenta da palavra e a paixão pelos livros, me arriscarei por aqui resenhar algumas obras, como o faço no meu dia-a-dia com os alunos: uma ponte entre a análise sociológica e a fala social que per passa pela arte, seja ela, a música, a poesia, a pintura, etc.
Então escolhi, sem a licença do poeta, ainda vivo, o catarinense Nilo Neto, amigo e afeto precioso analisar sua poesia a partir do momento virtual, dos verdadeiros livros virtuais que são os blogs. Os poetas de blog que chamo, expressão que não denota nenhum desvalor a tais.
Li vários blogs de poesias, estilos os mais variados, temáticas que vão sempre do amor (como cabe a todo poeta escrever), a violência urbana, política, erotismo, etc. Sou uma apaixonada por "clássicos" da poesia brasileira, cresci lendo Carlos Drumond de Andrade, cheguei mesmo na adolescência a escrever uma carta a ele, não a remeti, com receio que me achasse tola. Quando morreu, pensei que poderia ter em mãos a resposta daquela carta. Me arrependo até hoje. Meu tesão sociológico, como diz o mestre e doutor Francisco Junior, me atiça a excursão pela alma da poesia deste outro poeta. Não gostaria de me arrepender de não tê-la feito um dia.
Acho que aos dezoito ou antes, ganhei um Manuel Bandeira, perdido em mudanças ou emprestado. Aquele que começa assim: "Não abra o meu livro se não tens motivo para chorar", parecido com o Livro de Mágoas de Florbela Espanca. Há vários momentos na poesia de NN, com esta etiqueta-aviso da tristeza, que não nos afasta, e sim nos atraí e marca, como se dividíssimos a dor contida no verso do poeta. Estiloso como poeta triste imprime uma marca, como bom publicitário que é. Second Life quando aborda o tema dos amores virtuais. Amadas que são apenas reflexos num espelho, inatingíveis. Amores reais, na confusão da realidade virtual? Creio eu, uma romântica apaixonada por poesia, que tenha amado a todas elas, musas residentes em várias partes do Brasil. Sua poesia é singela ao tratar desse tema "cibernético", porque consegue "materializar" o virtual, uma nova forma de relacionamento
emocional, amplamente utilizada nessa época pós-namoro na TV e o correio sentimental das revistas de fotonovelas. Há belos versos no blog.
A cultura, o carnaval, Santa Catarina, a ilha, são homenageados pelo poeta além de suas mulheres mentirosas. Que o amor trouxesse sempre doçura, compaixão absoluta, nunca a solidão e a loucura, aos poetas, esses seres iluminados, tradutores da nossa subjetividade, os versos do nosso poeta seriam mais doces. Choveria e faria sol em seu coração, como num semi-árido paradoxal.

REEDITANDO POSTAGEM: A pedido de leitores, obrigada pela "audiência". Um pouco mais da poesia de NN. Infelizmente o blog é privado. Mas deixo o link para negociações com o autor.
E a advertência dele que toda a obra é ficção, qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. Claro, poeta seu eu lírico tem plena e criativa licença poética.

"ando seco.
a pena esturricou.

o coração fechado
pra balanço
do barco.

um caco
de telha
sem uso.

intruso,
em meu próprio
castelo de espelhos.

todos os que percebo,
todas as sombras e a base,
são mesmo o fim da escada.

e não me peçam mais nada.
eternos espinhos cravados.
metáforas gastas e pobres.

deixem-me torrar os cobres,
nos sons da poesia alheia.
nessa gente feita de areia.

tudo emancipado e nu.
tudo acidente, sem conexão.
até que chova em meu coração.

http://mentirosamulher.blogspot.com

Reeditando postagem: Blog reaberto. Um autor é para ser lido por todos.






A POESIA DE NILO NETO


Alguns deles me dizem que vai passar.

Outros me garantiram que vou levar tudo isso vida afora, mas que com o tempo acostuma.

Eu sei cada vez mais, que ela sempre foi o meu melhor público.

A risada e o choro me empurravam além, um pouco mais criativo, um minuto mais de experiência.

Mas ela se foi e agora carrega o filho dele.

E a vida ficou insuportável a maior parte do tempo.

Nas noites frias do inverno aqui no sul, então, uh lalá.

Pra não viver o tempo todo chorando e me lamentando,

Pra não ser ainda mais chato do que costumo ser,

Invento maneiras de fingir que vale a pena continuar vivo.

Chamo isso de auto-ilusão.

A que mais me acalenta na hora do desespero, amada,

É sonhar que um dia a gente ainda vai ficar junto.

Que a tua escolha em ficar com ele, não foi bem uma escolha,

Mas uma espécie de pressão que o mundo fez.

E naquele momento te pareceu a que menos te faria sentir dor.

Mas lentamente teu olhos se abrirão (esse é a minha auto-ilusão preferida)

E tu descobrirás que ficar ao meu lado é a única forma de felicidade autêntica,

Nesse planetinha azul, nem que seja quando tu estiveres velhinha,

Com teus cabelos brancos e cercada dos netos que tu tanto sonhas.

De mãos dadas comigo, olhando o dia terminar, chorando de felicidade, em silêncio,

Achando que viver valeu a pena.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

PERDOA-ME ... ( 7)


EQUILÍBRIO

Sinto que sou tu, e nesse instante quero
que o tempo pare
para que o belo seja eterno
agora que o meu desejo é igual ao teu,
agora que o amor, vida e morte são pura verdade,
agora que tudo é prazer e a dor não existe,
agora que o princípio e fim são exatamente iguais.
Agora que meu desejo é igual ao teu,
agora que minha vontade é tua vontade.

Ramón Sampedro
(Cartas do Inferno)

terça-feira, 1 de abril de 2008

PERDOA-ME ... ( 6)


SE ESTA RUA

Se esta rua fosse minha
eu mandava ladrilhar
com pedrinhas com pedrinhas de brilhantes
para o meu para o meu amor passar.

Nesta rua nesta rua tem um bosque
que se chama que se chama solidão
dentro dele dentro dele mora um anjo
que roubou que roubou meu coração

Se eu roubei se eu roubei teu coração
tu roubaste tu roubaste o meu também
se eu roubei se eu roubei teu coração
é porque é porque te quero bem.

RÊ BORDOSA

RÊ BORDOSA
TUDO DE DOIDA!

Quem sou eu

Minha foto
Teresina, Nordeste...Piaui, Brazil